Conceição Evaristo e Milton Hatoum: Quando a escrita transforma a vida

Encontro foi marcado pela reflexão sobre a literatura, a memória e a identidade

Conceição Evaristo e Milton Hatoum protagonizaram uma conversa marcada pela reflexão sobre a literatura, a memória e a identidade, num encontro que evidenciou o poder transformador da escrita e a profunda ligação cultural entre Portugal e o Brasil.

A sessão começou com um momento de agradecimento por parte de Conceição Evaristo a Valter Hugo Mãe, presente na plateia. A autora destacou a amizade que os une e agradeceu-lhe a presença, num gesto que deu o mote para uma conversa intimista e repleta de cumplicidade.

Ao longo da sessão literária, moderada por Minês Castanheira, Milton Hatoum abordou os laços históricos que unem Portugal e o Brasil, sublinhando a influência mútua que os dois países continuam a exercer no plano cultural e literário. O escritor revelou ainda que esta foi a sua terceira visita à cidade do Porto e partilhou o encanto que sentiu ao percorrer as suas ruas. Entre os aspetos que mais o surpreenderam destacou a impressionante quantidade de livrarias e alfarrabistas espalhados pela cidade.

Um dos momentos mais marcantes da conversa aconteceu quando Conceição Evaristo explicou o conceito de "Escrevivência", criado pela própria para definir uma escrita profundamente ligada às experiências de vida, à memória e às vivências das comunidades negras. Para a autora, escrever é um ato que nasce da experiência e da resistência. "Não escrevemos para adormecer os da casa grande, pelo contrário, escrevemos para acordá-la dos seus sonhos injustos", salientou.

A afirmação sintetizou a visão da escritora sobre a literatura enquanto instrumento de consciência e transformação social.

Na reta final da conversa, os dois autores refletiram sobre o lugar que a escrita ocupa nas suas vidas. Ambos destacaram a literatura como um espaço de liberdade e sublinharam que escrever vai muito além do exercício criativo: é também uma forma de compreender o mundo e, de alguma forma, encontrar um sentido nele.

O encerramento da sessão literária ficou marcado por uma frase de Milton Hatoum, que resumiu a profundidade da conversa e emocionou a plateia: "A escrita deu-me o desejo de viver". Uma declaração simples, mas poderosa, que reforçou a ideia de que a literatura não é apenas um meio de expressão artística, mas também uma forma de resistência, de esperança e de celebração da vida.