Gonçalo M. Tavares e Lídia Jorge em conversa sobre leitura, empatia e desigualdade social

Lídia Jorge declara que seria “mais explícita” no seu discurso do dia 10 de junho

Lídia Jorge, distinguida recentemente com o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia, juntou-se a Gonçalo M. Tavares numa conversa sobre leitura, comunidade e desigualdade social. 

Apesar do moderador, Francisco Sena Santos, ter dispensado introduções para ambos protagonistas desta sessão literária, Lídia Jorge não deixou passar a oportunidade de elogiar o seu par.  

Gonçalo M. Tavares principiou a sua intervenção com uma reflexão sobre a pandemia e o lugar da empatia nos dias de hoje, a propósito do seu livro mais recente, “O Fim dos Estados Unidos da América”. Lançaram-se ambos numa conversa sobre o sentido de comunidade e a fragilidade humana.  

Este tema acabou por se desenrolar naquele que foi o momento alto da sessão – incitada pelo moderador, Lídia comenta o seu polémico discurso do dia 10 de junho.  Neste discurso, Lídia condenou os extremismos e o racismo e declarou que “ninguém tem sangue puro”. Estas declarações suscitaram críticas, nomeadamente do líder do Chega, André Ventura. 

No BABELL, explicou que o seu discurso do dia de Portugal tinha sido perfeitamente inócuo e que “20 anos antes aquele texto não incomodaria ninguém”, e se tivesse de o repetir, “sublinharia mais, seria mais explícita”.  

Provocou então a plateia: “A minha pergunta é: o que é que aconteceu aos portugueses, uma comunidade que tem uma diáspora por todo o mundo, que padeceu agruras por toda a parte, que foi recebida em toda a parte, que conhece o que são os caminhos das dificuldades, que mendigou o acolhimento em toda a parte do mundo, o que é que nos aconteceu para nos esquecermos desse nosso ADN?” 

Acaba explicando que “Existe uma espécie de mistificação global (…) que faz com que aquilo que está falhando completamente do ponto de vista económico e que nos faz a uns cada vez ser mais pobres, a outros cada vez ser mais ricos, seja tomado como o caminho a aprofundar”.  

Lídia corroborou assim a ideia que Gonçalo proferira antes de que “um país rico é um país que não tem pobres” e que, apesar de ser dizer que “a empatia é tóxica para a economia”, é absolutamente imprescindível.  

Discutiram ainda a importância da leitura e da imaginação. “O livro é a cama para o nosso espírito”, disse Lídia. Gonçalo criticou o efeito que as redes sociais têm na capacidade criativa das pessoas. Acrescentou mais tarde que para si, “escrever é um prazer físico absolutamente incrível” e que “escrever é viver”.