Isabel Rio Novo e João de Melo: a escrita e o tempo
Sessão decorreu no Largo de Santo Ildefonso (Batalha) e contou com moderação de Sérgio Almeida e leituras de Cristiana Sabino
A memória, a história e a identidade da escrita foram alguns dos temas debatidos na sessão literária de Isabel Rio Novo e João de Melo, integrada na programação do BABELL, que decorreu no Largo de Santo Ildefonso (Batalha). Moderada por Sérgio Almeida e acompanhada pelas leituras de Cristiana Sabino, a sessão reuniu duas das mais reconhecidas vozes da literatura portuguesa contemporânea para uma reflexão sobre a forma como a escrita preserva o passado e lhe atribui novos significados.
Com percursos literários distintos, mas unidos pela atenção à memória individual e coletiva, Isabel Rio Novo e João de Melo abordaram a forma como as suas obras estabelecem um diálogo permanente entre a realidade histórica e a criação literária. Das biografias ao romance, dos territórios insulares às experiências coletivas, ambos mostraram como a literatura pode recuperar vidas, lugares e acontecimentos, revelando dimensões da experiência humana que frequentemente escapam aos relatos históricos.
Ao longo da conversa, ficou evidente que a memória não é apenas um exercício de recordação, mas também um processo de construção. Entre o rigor da investigação e a liberdade da ficção, os dois escritores refletiram sobre a responsabilidade de contar histórias e de preservar aquilo que o tempo tende a apagar.
Foi neste contexto que Isabel Rio Novo partilhou uma das ideias mais marcantes da sessão, descrevendo a criação artística como uma forma de resistência ao esquecimento. "A arte, em geral, é essa tentativa vã, mas bonita de estendermos a mão na direção oposta à da corrente e tentarmos evitar que a corrente passe", disse.
Também João de Melo sublinhou a importância da literatura na compreensão do passado, defendendo que os factos, por si só, não são suficientes para explicar a experiência humana. "Os manuais podem dizer tudo (...), mas não está lá o sentimento do tempo, nem a noção de causa no tempo e no espaço", referiu.
Para o escritor, é precisamente essa dimensão emocional e humana que distingue a literatura de um simples relato histórico, permitindo compreender não apenas o que aconteceu, mas também a forma como os acontecimentos foram vividos por quem os experienciou.
A conversa evidenciou ainda que, apesar das diferentes abordagens literárias de Isabel Rio Novo e João de Melo, ambos partilham a convicção de que escrever é uma forma de preservar a memória, interrogar o passado e compreender o presente.