Julian Barnes conquistou os leitores numa conversa entre o humor, a literatura e a condição humana
O escritor britânico refletiu sobre a relação com os leitores, o fim da sua carreira e a doença.
No dia 28 de junho, o BABELL recebeu um dos momentos mais aguardados da sua programação com a presença do escritor britânico Julian Barnes. Perante uma plateia de 1200 pessoas, o autor protagonizou uma conversa conduzida por Richard Zimler, num encontro que conciliou humor e uma reflexão constante sobre a literatura, o tempo e a vida. As leituras estiveram a cargo de Rui de Noronha Ozorio, que deu voz a alguns dos textos do escritor.
Ao longo da sessão, Julian Barnes revelou-se um interlocutor próximo do público, alternando momentos de ironia com reflexões profundamente pessoais. Um dos temas abordados foi a relação que mantém com os seus leitores, recusando qualquer ideia de distância entre autor e público: "Eu estou ao mesmo nível que os leitores."
O escritor confessou ainda que continua a responder às cartas que recebe dos seus leitores, acrescentando, com o humor, que responde "às que são mais simpáticas".
A literatura ocupou naturalmente um lugar central no encontro. Barnes falou da influência de William Shakespeare na sua escrita, reconhecendo o dramaturgo inglês como uma das referências incontornáveis do seu percurso literário e da forma como encara a construção das narrativas.
A conversa centrou-se também no seu mais recente livro, Partida, que o escritor considera poder ser o último da sua carreira. Julian Barnes explicou que essa decisão surgiu de forma natural: "A máquina estava a abrandar."
Com a serenidade que caracterizou toda a sessão, Julian Barnes deixou transparecer a ideia de que cada percurso criativo tem o seu tempo, aceitando a possibilidade de encerrar uma carreira literária marcada por algumas das obras mais importantes da literatura contemporânea.
Um dos momentos mais emocionantes da conversa aconteceu quando Barnes falou, de forma tão aberta, sobre o diagnóstico de um raro cancro no sangue. O escritor recordou o momento em que, durante a realização dos exames, perguntou à enfermeira:
"O meu cancro não tem cura?". A resposta ficou gravada na sua memória: "Não é curável, mas é gerível." Foi então que encontrou uma metáfora que resumiu a forma como passou a olhar para a doença, e para a própria existência: "É como a vida."
A sessão terminou com um momento de grande emoção. Dirigindo-se à plateia, Julian Barnes deixou uma última mensagem, que arrancou um prolongado aplauso da plateia: “Quando olho para esta audiência, eu vejo o futuro da humanidade."
Foi um encerramento à altura de uma conversa que oscilou entre a leveza e a profundidade, entre o humor e a vulnerabilidade, confirmando Julian Barnes como um dos grandes nomes da literatura contemporânea.