Salman Rushdie: “Quero escrever sobre as coisas que fazem de nós humanos”

Três mil pessoas no Coliseu para ouvir Salman Rushdie

A sessão começou ao som de “Over the Rainbow”, do Feiticeiro de Oz, por escolha do moderador Alberto Manguel. O ensaísta argentino perguntou a Salman Rushdie se reconhecia a letra da canção, ao que o escritor respondeu imediatamente que sim. Contudo, quando desafiado a cantar, recusou prontamente, arrancando gargalhadas à plateia, uma reação do bom humor de uma conversa que se viria a repetir com frequência ao longo da noite. 

Foi este mote que deu início a uma viagem pelas memórias de infância de Rushdie e o seu primeiro conto, intitulado, precisamente, “Somewhere Over the Rainbow”, a sua relação com o pai e com a leitura.

Entre uma citação de Hemingway, piadas sobre Shakespeare e até uma passagem em que comparou As Mil e Uma Noites aos filmes de Quentin Tarantino, Rushdie conquistou o Coliseu.

Em palco, Salman Rushdie falou abertamente sobre o seu processo de escrita, as curiosidades que a pesquisa lhe traz e a sua forma de cruzar mundos e explorar a imaginação.

Quando questionado sobre a relação da literatura com a política, o escritor mencionou Jane Austen e explicou que atualmente “a distância entre a vida pública e privada quase desapareceu”. Terminou declarando que não pretende “escrever ficção polémica”, mas sim “escrever sobre as coisas que fazem de nós humanos”.

Com leituras de António Durães, a sessão provou por que razão Rushdie é um mestre a conquistar o público. Perante uma plateia de três mil pessoas completamente rendidas, a conversa de 60 minutos soube a pouco e passou a voar: “Pareceram 20 minutos, podia ficar a ouvi-lo a noite toda”, ouviu-se à saída. Ainda antes de dar a sessão por terminada, o escritor despediu-se saboreando um cálice de Vinho do Porto, um remate perfeito que culminou numa ovação gigante de pé.